quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

até ao teu regresso

não sei bem se agora o frigorífico é um lugar
ou um electrodoméstico.

sei que vou ficar quietinho a ver se oiço
algum som.

sei que vou dar passos pequeninos pela casa
até saber de ti.

não sei bem se agora o frigorífico é um lugar
ou uma metáfora.

sei que os meus versos ficam murchos
quando não choves.

sei que amanhã vais acordar em algum lado
que não aqui.

não sei bem se agora o frigorífico é um lugar
ou uma lágrima de pedra.

não quero ir ao lar do valter hugo mãe

quero ficar aqui no nosso frigorífico.

e também se me mexesse agora.
desfazia-me em gelo pelo chão da cozinha.
não quero ficar triste nem contente.
quero ficar assim.
não me interrompas.

feliz idade

no lar do valter hugo mãe, conheci o senhor antónio silva
diz que era barbeiro.

falei-lhe de ti
e ele ainda guarda a maquinaria numa malinha debaixo da cama.

logo à tarde
tiro-te do frigorífico

(parece que no frio a barba cresce mais depressa,
deve ser coisa de auto-defesa do ser humano)

e levo-te ao lar.

ele faz-te a barba
e tu ficas contente.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

raios

não faças fita.
o senhor do supermercado nem me diz patavina.
e também parece que nem conheces as gajas.

vens mas é buscar-me ao frigorífico.
e levas-me para a cama como se eu fosse 1 gelado.
e depois comes-me.
que ciência!

frigoríficos e rapazes ciumentos

o peixe congelado é um bicho resistente às baixas temperaturas.
tu olhas para mim com os teus olhos frios.

até há pouco tremias o dente mas agora és como o hotel do pai natal
(tenho a certeza que há qualquer coisa de quentinho aí dentro de ti, porra)

e o senhor do supermercado começa a perguntar por ti -
eu não digo nada, eu não digo nada -
sei muito bem que ele só te conhece por causa das tuas pernas a saírem debaixo das saias cada vez que lá vais.

O peixe congelado é um bicho resistente às baixas temperaturas.
estava cansado de dormir com uma pedra ao meu lado na cama.

passo muito bem sem água, se é que queres saber.
deixei a chave entre o pacote de manteiga e o resto da cebola do jantar.

quando quiseres, podes sair.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

nordics do it better

depois de limpar o frigorífico tirei a roupa.
entrei lá para dentro e tu fechaste a porta.
como tinha pedido.

estou aqui há algum tempo.

sei muito bem que é assim que hei-de maturar.
mas de vez em quando lembro-me que deve ser 1 chatice
teres de ir às compras todos os dias.
e dá-me pena. porque sei o quanto gostas de gelados e água fresca.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

lembrete

eu era do tempo em que os ursos de peluche e dos casacos polares.
na minha casa não se falava de amor, apenas de casamentos.
nunca pensei que uma coisa levasse à outra, ou vice-versa.

corrompi as estradas nevadas com lágrimas de sal.
abri as comportas do desejo.

e tudo isto enquanto tu te ias embora.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

tanto faz

podia casar-me agora contigo. tanto faz.
eu que não gosto de rituais.
podia aparecer-me 1 urso polar à porta de casa.
e eu ficava com ele para toda a vida.
tanto faz.

é como estar no meu próprio funeral.
e o sexo oposto possa tecer à minha volta.
que tanto me faz.

sou a desistente do ano.
morreu-me o homem essencial.
o amor. essas coisas.

isso agora. tanto me faz.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

pequeno-almoço

esta noite fui visitado pelo espírito da Patty Faria.
ri-me até nascer o sol.
enquanto te passeias pela casa, eu fico sentado na sala a ver a televisão angolana.

tu ris e eu descanso as pernas.

um homem toma chá no prédio em frente e tenta descobrir-te as coxas despidas.

eu oiço uma mulher que canta.

domingo, 10 de janeiro de 2010

és engraçado

às vezes não faço sentido nenhum no que digo.
e só tu é que achas piada.
ou quando visto a camisola do avesso.

são 20h56 e vou tomar o pequeno almoço.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

quero

eu quero ser o homem do lixo para quem tu não existes.
quero ser um bilhete de comboio, uma varina da nazaré, um restaurante que serve mal.
eu quero ser o boneco de chocolate numa árvore da vizinha,
quero ser uma tradução de finlandês.
eu quero ser a neve branca no telhado do primeiro-ministro,
quero ser o camião dos gelados,
quero ser a praia que os turistas desconhecem.

e, entretanto, para aqui estou, contigo, de gatas,
a varrer neve que não existe
a não ser no chão sujo da tua casa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

e depois

sonhei. ou pensei. bem. estava com os olhos fechados.
sonhei que. havia muita neve.
e nós de gatas. a varrer a neve com as pestanas.
ficámos tão lindos.

boas festas

não vais acreditar.
arranjei 1 rímel de natal. branquinho.
fiquei com 1 pestanas lindas.
mas depois aquilo. não sei.
fiquei com os olhos fechados por uns dias.
pensava em nós e via tudo na mesma.
nós no patinho de borracha a caminho da praia de nudistas da Nazaré.
a vaquinha Milka e o burrinho de Miranda do Douro.
que desgraça.
já atirei com o rímel branquinho ao lixo.
já nem está na rua.
porque ainda agora ouvi os homens do lixo a assobiar o love me tender.